segunda-feira, 23 de maio de 2011
Por que se pede a São Longuinho promentendo três pulinhos?
quarta-feira, 18 de maio de 2011
O Punho Sagrado
OSS...
O seu nome era YASUTSUNE ITOSU (Anko), o maior de todos os Mestres de Karatê-Dô, conhecido como “O Punho Sagrado do Karatê-Dô", um dos Mestres de Funakoshi.
Ele foi o criador dos HEIAN’s.
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Uma História sobre esse Mestre:
Em 1906, um Marinheiro da Frota Imperial Japonesa, Campeão Nacional de Judô lançou um desafio a todos os Karatê-Dôkas de Okinawa, para que escolhessem um a enfrentá-lo em um Combate ao final do dia na praça central na província de Shuri.
No horário marcado uma centena de jovens Karatê-Dôkas se encontrava dispostos a enfrentar o Campeão de Judô.
No entanto, do meio deles o velho Mestre Itosu aos 76 anos de idade se propôs a enfrentá-lo, e ninguém o questionou mesmo ele sendo tão velho.
O campeão Japonês de Judô incrédulo perguntou ao Mestre: “Que honra há em derrotar a um velho?”
O velho Mestre perguntou se mesmo assim ele lutaria?
O Judôka concordou!
Ao se iniciar a luta O-Sensei Itosu saltou sobre o seu oponente soltando um Kiai aterrador seguido de um Oi-Zuki Tchudan.
O marinheiro morreu no mesmo dia dentro da enfermaria do navio da frota Japonesa.
Deste dia em diante o mestre ficou conhecido como: “O Punho Sagrado do Karatê-Dô.”
O Mestre Morreu aos 86 anos, no ano de 1916.
OSS...
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Sakki
Um dia perguntaram para Masatomo Takagi Sensei sobre Funakoshi Sensei, e esta história foi contada:
Já em idade avançada, Sensei Funakoshi não treinava como antes. Porém, pediu a mim (Takagi) que o ajudasse nos treinamentos, tentando atacá-lo sempre que achasse que ele estivesse desatento. Evidentemente que achei aquilo meio bobo, já que eu nunca ousaria fazê-lo tendo em conta sua idade avançada. Meu respeito por ele não admitiria isso.
Porém, fui repreendido severamente diversas vezes por não fazê-lo até que um dia, percebendo-o no canto do Dojo, em aula, dando uma leve cochilada, aproximei-me dele bem devagar e quando estava bem perto, lancei um Uraken bem rápido em sua direção. O golpe foi facilmente desviado, apenas com um movimento lateral de cabeça.
No mesmo instante ele disse:
- Sem chance Takagi, acho que você deveria treinar mais Karate, está muito lento.
Evidentemente que quando contei a meus amigos o ocorrido, disse a eles que talvez Funakoshi Sensei estava brincando de gato e rato comigo, que na verdade ele estava fingindo estar dormindo só pra me pegar.
Até que certo dia, já na Takudai University, num Gashuku, tive que entrar no quarto do mestre para pegar meu Karate-Gi pois compartilhavamos o mesmo quarto. Ao adentrar o quarto, percebi que o Mestre estava num sono profundo. Momento ideal para um ataque surpresa e cheguei a aproximar-me dele com o pensamento bem fresco em minha mente.
Na hora H, pensei o seguinte. Ele não terá chance se eu atacá-lo agora, portanto não farei nada e amanhã cedo lhe direi que o fiz, e que ele nem percebeu. Neste mesmo instante, como se lesse meu pensamento, ainda de olhos fechados ele me disse:
- Takagi, vai atacar logo ou vai ficar aí pensando nisso a noite toda?
Juro, isso aconteceu de verdade! A partir daquele instante nunca mais ousei desconfiar do Sensei.
Essa habilidade se chama em japonês Sakki (literalmente sentir a morte), e é o que buscamos nas Artes Marciais e especialmente no Karate-do.
É aquele sentimento de previsão de perigo, que algo errado está prestes a acontecer. Se conseguirmos sentir isso numa luta, antecipando o ataque do adversário, jamais perderemos uma batalha.
Hoje em dia vemos dezenas de milhares de pessoas, desenvolvendo suas habilidades físicas nas Artes marciais, esquecendo-se do espírito.
Por isso mesmo, quanto mais velho fico, mais distante de me sentir somente um lutador me sinto. Karate é escola de vida.
Melhor adquirir Sakki…
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Homem que é Homem - Luís Fernando Veríssimo
navalha? E se tivesse gritado, em vez de “Independência ou Morte”, “Independência ou Alternativa Viável, Levando em Consideração Todas as Variáveis!”? Você pode imaginar o Rui Barbosa de sunga de crochê? O José do Patrocínio de colant? 0 Tiradentes de kaftan e brinco numa orelha só? Homens que eram Homens eram os bandeirantes. Como se sabe, antes de partir numa expedição, os bandeirantes subiam num morro em São Paulo e abriam a braguilha. Esperavam até ter uma ereção e depois seguiam na direção que o pau apontasse. Profissão para um HQEH é motorista de caminhão. Daqueles que, depois de comer um mocotó com duas Malzibier, dormem na estrada e, se sentem falta de mulher, ligam o motor e trepam com o radiador. No futebol HQEH é beque central, cabeça-de-área ou centroavante. Meio-de-campo é coisa de veado. Mulher do amigo de Homem que é Homem é homem. HQEH não tem amizade colorida, que é a sacanagem por outros meios. HQEH não tem um relacionamento adulto, de confiança mútua, cada um respeitando a liberdade do outro, numa transa, assim, extraconjugal mas assumida, entende? Que isso é papo de mulher pra dar pra todo mundo. HQEH acha que movimento gay é coisa de veado.
domingo, 10 de outubro de 2010
CONTOS:campanha perdida
Limpou a espada na roupa bordada com o escudo da Legião da Luz do falecido a sua frente. Pelo que percebeu o tal “imbecil” tinha certo prestígio, seu emblema era composto de 3 estrelas. Kar’rov olhou para trás e observou o pequeno elfo negro sentado numa pedra, com a ponta de sua faca de lâmina tão escura quanto sua pele tirando pedaços coagulados de sangue das unhas. O olhar malicioso do elfo não intimidava o algoz que embainhava sua espada bastarda.
— Que foi? — resmungou Kar’rov.
O sorriso louco, digno de um assassino, não desapareceu dos lábios do elfo e isso não intimidava, mas irritava tremendamente Kar’rov.
— Fala logo? Por que está rindo e olhando pra mim?
Com essas palavras o algoz avançou em passos firmes, chutando o braço do clérigo aliado do paladino que o caçava. Seu corpo grande, abaixo da armadura era intimidador, e os cabelos castanhos curtos completavam o quadro com o rosto marcado de cicatrizes feitas à foice nos ritos de passagem para se tornar o que atualmente é, um inimigo da bondade.
O elfo negro olhou para a lâmina, viu uma versão embaçada do próprio reflexo no aço escuro e olhou para o ombro direito do algoz que vinha na sua direção. E nesse ombro, para a surpresa de Kar’rov, algo tocou, com leveza e surpreendentemente furtivo. O algoz tremeu como não acontece de forma costumeira. Ele ser pego desprevenido é algo difícil e assim, numa clareira no meio de uma floresta aberta, seus sentidos deveriam o avisar, contudo, dessa vez, falharam. Seu rosto só virou e fitou a mão de Carenia, a humana feiticeira que se movia como uma sombra.
— Você ainda será derrotado por sua impaciência — disse calmamente a humana de olhos brancos — E outra coisa, acho que estamos sendo observados.
Kar’rov puxou o ombro, tirando-o debaixo da mão leve de Carenia.
— Você e seus ouvidos potentes — debochou.
O algoz já presenciara as crises de loucura de Carenia. Ela sofria de algum distúrbio, pois ouvia vozes, dizia ser perseguida e por muitas vezes se escondeu atrás de folhas no chão, crianças e cadeiras assumindo como grandes esconderijos para escapar dos seus perseguidores invisíveis. Kar’rov estava ficando cheio dessa maluca.
— Onde está Malaquias? — perguntou Carenia ao elfo.
Ele deu de ombros. Realmente não sabia. O quarto componente desse grupo gostava de sumir. Malaquias sumia muitas vezes utilmente para fazer uma ronda e observar em volta do local que o grupo repousaria.
— Deixa ele pra lá! — resmungou Kar’rov — Ele sabe se cuidar melhor que vocês dois e mesmo assim se acontecer algo a gente escuta, ele grita como uma meretriz quando está em perigo.
Kar’rov recebeu olhares críticos dos dois, mas não ligou. Não seria um assassino qualquer e uma feiticeira que o calaria. Ele tinha outras coisas para se preocupar. Abaixou entre o paladino e o clérigo, correu a mão entre suas roupas e procurou. Seus dedos encontraram entre muitas coisas inúteis, algo de certo valor, um amuleto que o clérigo utilizava, feito de bronze e com uma safira no centro, valeria uma boa quantia em dinheiro.
Carenia já mexera no caído que chamou sua atenção, o arcano que seguia o grupo morto tinha itens interessantes. Ela conseguiu um pergaminho com uma magia que ainda não identificara, um par de luvas que percebeu ser mágico e sem hesitar colocou — não sentiu diferença nenhuma, mas vestiu — e por fim, a feiticeira examinava o cajado feito de madeira e aço, adornado com tecidos colados e inscrições que remetia a um poema recitado em grandes rodas de bardos famosos. Era uma peça de muito bom gosto, leve, firme e emanava uma aura mágica incrível, sua curiosidade com o estudo dos magos sempre foi imenso, mesmo sabendo que suas habilidades limitavam-na a depender de outras fontes de poder e não dos grimórios e bibliotecas. Ela pensava nisso sempre. O porquê de ela ter suas habilidades mágicas viciadas na sua própria vida e assim viver fugida porque matou mais de uma vez para alimentar seus feitiços. Seus pensamentos viajavam, cruzavam as nuvens em busca das respostas.
— Acorda! — gritou Kar’rov assustando Carenia.
— Não faz isso! — falou com raiva a feiticeira.
— Só tu mesmo! Fica olhando para o nada, de boca aberta, igual uma maluca.
— Que foi?! — deixou o cajado no chão primeiramente levantando para não mostrar intimidada pelo algoz, mas num segundo momento seus olhos mudaram, sua face ficou apreensiva, o algoz e o assassino a frente estavam com armas em punho, olhando para a copa das árvores. Ao lado, caminhando lentamente, com o arco longo feito de osso estava Treor, o ranger que misteriosamente passou por um ritual para receber um terceiro olho no centro de sua testa, era grotesco, mas concedia uma pontaria precisa quando ele retirava a bandana que escondia seu segredo. Os três olhavam para a copa das árvores e ninguém se mexia.
Carenia procurou falar o mais baixo que podia para lançar seu feitiço. As palavras saíam um pouco cortadas, mas o suficiente para uma magia simples. Suas roupas sacudiram como que balançadas por um vento leve e ela fitou o fio dourado que a envolvia. “Proteção nunca é demais”, pensou.
— O que é? — cochichou Kar’rov para Treor.
— Eu vi aqueles galhos se mexendo — disse o ranger com sua voz poderosa e apontando para cima, atrás do grupo.
— Será que esses desgraçados não estavam sozinhos — falou Kar’rov esmagando a mão do arqueiro morto com o peso do seu pé. O barulho dos ossos quebrando parecia dar-lhe prazer.
O elfo negro se moveu para perto da folhagem, olhando para cima e num outro instante já estava no meio da pouca sombra que aquela floresta provia. Sua lâmina negra foi a última coisa que o grupo viu.
Barulho.
Um chacoalhar de folhas no alto e alguns esquilos indo de uma árvore para outra chamou atenção dos três. Kar’rov estava com a espada tão firme que poderia cortar outra lâmina ao meio se viesse de encontro à dele. Treor já preparava uma flecha em seu arco ósseo. Carenia se concentrava e recitava um outro feitiço como precaução. Os pés de Treor alisavam o chão sem produzir barulho, as folhas eram deixadas de lado, os galhos passavam por cima da bota e ele ia se movendo lentamente sem produzir som, o elemento surpresa poderia ser dele ainda. Estava querendo tirar a bandana, mas retirar a mão do arco valeria segundos preciosos para armar a flecha novamente, não faltará oportunidade para enxergar tudo melhor se um combate realmente iniciar.
Barulho.
Agora do lado direito. Carenia já não conseguia mais segurar o volume das palavras, essas precisavam ser ditas mais claramente ou o efeito não sairia como desejado. Vários brilhos giraram de seus pés até sua cabeça, eram quase que vaga-lumes piscando a sua volta, a primeira coisa que aparecesse receberia as luzes no meio do peito.
Um estouro de folhas surpreendeu a todos e da parte de trás o elfo negro vinha no ar, pernas e braços soltos, o corpo girando desengonçado, a cabeça não se controlava até bater contra o chão depois de passar por cima do grupo. Sua trajetória foi seguida por um rastro de folhas e galhos que caíram como uma chuva sobre os companheiros. O elfo se manteve no chão por segundos ainda esperando o corpo absorver o dano. Os outros três depois de verem o assassino do grupo ser arremessado como um tomate, olharam na direção e viram dois troncos grossos serem levantados do chão, ou eles estariam enganados, ou a criatura estava erguendo por mais de dois metros os dois troncos inteiros na vertical.
Zar’rov gritou e sua espada iluminou-se em azul. Carenia disparou e dez luzes avançaram contra a criatura a frente, os projéteis de pura luz passaram entre galhos, folhas, troncos e explodiram em um espetáculo de fagulhas nos troncos levantados e no alvo que ainda se mantinha entre as árvores. Por fim, o inimigo apareceu quando toda a magia se chocou contra si. Zar’rov não esperou ver, apenas avançou e atacou descendo sua espada contra a casca grossa, marrom e dura como pedra. Um ent.
A criatura era uma árvore imensa, que possuía dois braços e duas pernas, dedos eram galhos mais finos que o tronco, mas ainda sim da grossura de uma criança, os pés possuíam galhos retorcidos que serviam de dedos e davam boa estabilidade a toda enorme estrutura. O algoz viu que os troncos que levantaram na verdade eram os braços do ent e foi com eles que a criatura revidou o golpe de espada. O ent lançou o algoz para longe como fez com o assassino e com a mesma força Zar’rov estourou contra o chão dentro de sua armadura pesada.
Duas flechas foram disparadas e acertaram o meio do monstro próximo a um emblema, parecia um cordão, um amuleto. Cerinia correu para trás e de lá recitava novas frases num idioma proibido, ela aprendeu, não negava, mas só utilizava quando em situações extremas. Ver Zar’rov ser arremessado tão facilmente era uma situação extrema.
Ela virou contra o Ent e gritou com toda a força dos seus pulmões:
— Manus Fragmen Necron!
O chão tremeu abaixo da criatura e o solo parecia abrir para o fogo que surgiu, labaredas tão altas quanto um adulto e logo depois dela uma mão óssea imensa, com pedaços de carne podre, dedos tão grossos quando uma coxa de mulher. A visão era infernal, parecia que a mão gigante esquelética vinda dos confins do mundo inferior buscava levar para seu plano natal seu alvo. O fogo que ardia cobrindo os dedos partia a casca do ent. Toda a perna da criatura foi abraçada pela mão que apertava quebrando a primeira e segunda camada de casca da criatura. O fogo penetrou nas camadas mais fundas e fez a criatura urrar.
O gritou era volumoso e passava toda a dor do fogo destruindo sua dura pele vegetal. Mais três flechas foram disparadas e essas miravam o talismã que desprendeu da corrente fina de metal e caiu no chão, entre as folhas.
— Pegue-o! — gritou Treor para Carenia, mirando o cordão com os olhos.
Zar’rov levantou e novamente disparou contra a criatura, aproveitando que a dor a distraía e o fogo infernal conjurado estava consumindo seu corpo. Com a força das duas mãos, o algoz acertou a parte de trás da perna que não estava sendo queimada e a espada estourou cascas e vinhas que formavam o membro inferior. O algoz riu ao ver o estrago, sentiu que era uma árvore que andava apenas.
Carenia olhou para o cordão e recitou uma frase rápida. O amuleto levantou de onde estava e vôo até sua mão. Num lance rápido ela jogou nos pés de Treor que antes de pegá-lo disparou três flechas em seqüência contra o rosto do ent. As flechas fincaram fundo e uma acertou no buraco que servia de boca. O elfo negro já de pé se moveu rápido entre as árvores e flanqueou a criatura, pelas costas mirou nos pontos que ele achava vulnerável e desferiu um golpe atrás do outro com habilidade invejável. Cada estocada não dava descanso para a casca do ent, logo era acompanhada de outra, de outra e mais outra, o furo ia ficando cada vez mais fundo ao ponto do buraco já ter a profundidade de uma adaga e meia.
Depois dessa seqüência de golpes, o elfo mudou de posição e sentiu o ent urrar no final, o buraco estava fundo. A lâmina negra era poderosa e com ela até as mais fortes armaduras cediam, se aço era cortado como tecido, casca de árvore seria fatiada como banha de porco no calor.
Zar’rov e o elfo negro escapavam dos ataques e causavam ferimentos no ent coreograficamente. Carenia mantinha a concentração para sua magia não se dissipar. Ter conjurado outra magia no meio da Mão Ígnea já custou boa dose de concentração. O ent tentava se libertar da mão flamejante esquelética que o prendia no solo e destruía sua pele.
Treor disparou mais uma flecha, mas dessa vez ela bateu contra a casca e quebrou. Não se importou, o amuleto aos seus pés era mais importante. Enquanto observava seus companheiros lutando contra a criatura, abaixou e pegou a peça. Por um instante ele parou e sentiu a espinha gelar. Fitou de novo o nome talhado na madeira banhada em prata. Engoliu seco. Olhou para frente, fitou a criatura que tentava desesperadamente se livrar da mão esquelética ao mesmo tempo em que tentava acertar seus agressores.
O ranger levantou, tremeu os dedos quando preparou as flechas e andando para frente, na direção do ent disparou. Disparou. Disparou. Disparou.
Os tiros eram a esmo, só mirando a grande criatura.
— Carenia! Quanto tempo você agüenta — perguntou Treor nervosamente.
— Bem... — Carenia percebeu o nervosismo — Pouco. Mais um pouco só, alguns segundos.
— Vocês dois!!! — gritou Treor como um louco — Saiam daí! Agora! SAIAM!!!
Kar’rov e o elfo não entenderam a atitude do ranger. A vitória estava quase certa. A criatura não acertou nenhum outro ataque e os dois destroçaram a casca do ent quase que por completo. As flechas não estavam mais ferindo a criatura, apenas a distraindo. O ranger atirava com agilidade maior sacrificando qualquer precisão, apenas para fazer o ent utilizar os braços para se proteger da quantidade de projéteis.
— Saiam! — gritou de novo!
— Por que?! — retornou o algoz, retirando a espada da casca da criatura e dando um passo para trás.
O elfo olhou de forma desconfiada para o ranger. “Se isso tudo não tiver um bom motivo o arco de osso não será páreo para as adagas”, pensou o assassino.
Carenia via sua mão esquelética perder força e ser despedaçada pela criatura. Os pedaços de chamas espalharam-se pela clareira, mas desapareceram antes de tocar o chão. Zar’rov e o elfo negro saíram de perto, mas continuaram olhando para o ent e para o ranger.
O ent sacudiu o resto do fogo, seus galhos da copa jogaram folhas para todos os lados, os grandes olhos marrons brilhantes no meio da casca grossa chamuscada fitaram seus agressores, e a cena se mantinha paralisada. A grande criatura olhando os quatro aventureiros, e o grupo olhando o ent parado. Sumiu. De repente o ent sumiu. Como se nunca estivesse lutado naquela posição. Como se nunca aparecesse pra eles.
— O que é isso?! — gritou o algoz empunhando a espada.
— Não sabia que eles podiam fazer isso — comentou com desespero Carenia olhando tudo a sua volta como rapidez louca.
— Eles não podem... — resmungou Treor com tristeza, parecia que ia chorar — Mas esse não é qualquer um...
— Um dos malditos Ent Protetores? — perguntou severamente Kar’rov lembrando de um grupo dessas criaturas que recebeu treinamento de clérigos e desenvolveram habilidades diferentes.
Mal terminou de falar, o algoz recebeu um pedaço de tronco no meio do estômago. O braço do ent surgiu e logo depois ele inteiro na sua frente e lançou o largo homem contra a árvore mais próxima. Depois se virou e com toda a força do movimento mirou o assassino que rolou por baixo do braço e correu na direção oposta.
Carenia gritou:
— Toma isso sua árvore!
E uma pedra envolta em fogo imensa surgiu na palma da sua mão que estava acima da cabeça como se procurasse chegar mais perto do céu. A pedra flamejante girava dentro das labaredas enquanto era conjurada e girou mais ainda quando foi lançada contra o ent.
— Coma essa Bola de Fogo!
O choque foi uma mistura de cascalho, chamas, cascas e folhas explodindo na clareira. O barulho fez o assassino tremer e o impacto jogou o ent contra o chão de costas entre raízes de uma outra árvore.
— Corre! — gritou Treor.
E todos obedeceram, apenas Zar’rov demorou mais para se levantar e sustentar a armadura amassada, os cortes no rosto e uma costela quebrada. Os quatro correram pela floresta a dentro, entre as árvores esparsas. Não precisava de muito cuidado, dava pra ver tudo a frente e escutar o ent atrás urrando enquanto se levantava.
O grupo se surpreendeu ao chegar a uma ladeira no meio da floresta, mas o barulho da criatura atrás e a atitude ainda inexplicável de Treor os motivaram a descer rápido. Carenia ia atrás de Treor que conhecia melhor o caminho e onde pisar, atrás deles ia Zar’rov e, dando a cobertura de sempre, o elfo negro.
Os passos do ent que os seguiam cessaram ao chegarem ao final da ladeira e se esconderem atrás de um carvalho imenso da largura de uma tenda.
Os quatro se escoraram e os olhares eram interrogativos, para não dizer inquisitivos na direção do ranger.
— Bem... — tentou iniciar olhando para o cordão da sua mão — Esse não é um burro ent comum...
— Isso eu já sei! Conta algo novo! — interrompeu Zar’rov passando a mão por dentro do peitoral para chegar à costela.
— E também não é um Ent Protetor... — uma pausa para secar o suor da testa — ...comum.
— Fala logo o que ele é, maldito! — gritou Zar’rov sem olhar para ninguém, apenas com os olhos fechados de dor, uma careta e a mão achando o osso quebrado.
Treor apanhou o cordão que arrancou a flechadas e levantou contra o rosto para que todos vissem. Todos olharam, mas para qualquer um ali não era mais que um cordão prateado com um nome escrito. O ranger enquanto falava seguia o nome com a ponta do dedo.
— Feltroene Greonoul Frou... Rei dos Ent Protetores. O mais poderoso dos Ent. Herói da Guerra dos Campos Verdejantes do Rei. Capaz de triturar todos nós sem problema.
— Mas como... — tentou Carenia.
— Ele estava testando pra conhecer nosso poder, se éramos dignos, se não maltratariam sua floresta.
— E não... Maltratamos... — falou Zar’rov entre os dentes depois de um estalo da coluna. Suas mãos brilhavam em azul enquanto tentava fechar alguns cortes.
— O que faremos agora então? — perguntou Carenia.
— Ficar aqui sentados que não ajudará — concluiu o algoz.
— Ele pode estar em qualquer lugar esperando para nos atacar. Ele vê o que as árvores escolhidas dele vê. Ele não se camufla como os outros ent, ele literalmente desaparece quando está no meio de uma floresta e o pior, tudo o que fizemos não é...
Um barulho imenso cortou o canto de uns pássaros. As passadas pesadas do Rei Ent Protetor foram ouvidas da frente e não de trás, de onde ele deveria estar vindo. Os olhos dos quatro perguntaram a mesma coisa: ele deu a volta e em silêncio total?
Malaquias preparou o arco e ajudou Zar’rov levantar. O elfo negro segurou firme as duas adagas negras e se separou do grupo pelo lado. Carenia pesquisa o que poderia ajudar o grupo naquele momento. Estava quase sem magia e se continuasse iria precisar utilizar do seu sangue para isso.
A imagem era assombrosa. A criatura caminhava pelas as árvores, tateando cada tronco como se precisasse de apoio, mas eles viam que cansaço não era o que ele sentia. Vinhas verdes corriam pela estrutura fechando os buracos de flecha, os cortes da espada de Zar’rov e das adagas do assassino. O fogo que tanto dano causou parece que nunca aconteceu. As vinhas reconstituíam a casca de fora pra dentro. Galhos mais grossos e, da mesma cor da vinha, formavam massas volumosas nos ombros, pernas, caule e cabeça. Uma proteção feita de galhos que vinham do próprio chão, se ligavam com os já existentes, curavam e formavam a armadura do líder Ent.
O assassino tocou a ponta de suas adagas, olhou para o próprio grupo acuado e sem ter o que fazer pensou numa solução para aquele grande problema com galhos e folhas. Sabia que teria que agir rápido para não ser pego igual da última vez, estava praticamente invisível e mesmo assim foi arremessado como um boneco. Ele já sabia o que fazer, ia precisar de uma ajuda. Colocou a mão dentro da roupa e retirou um pote quadrado de vidro com uma luz amarelada no interior, olhou para a criatura que vinha tocando às árvores e olhou para a posição do grupo que já se movia para ir a outro carvalho.
Carenia sentiu suas veias incharem quando pensou em lançar mais um feitiço, maior que sua atual energia dispunha, na verdade ela já experimentava o incômodo de ser uma feiticeira e não uma maga. De utilizar sua magia após sua energia finalizar. Era um dom e uma maldição também. Sentir o corpo doer quando sua vida é sugada. Carenia quase tropeçou numa grande raiz quando saiam e sua distração custou a furtividade do grupo. O Rei Ent atravessou a floresta em largas passadas, com a vontade de destruir os invasores, de esmagar sem dó. Os galhos batiam nas outras árvores, estalavam.
— Que isso nos ajude — falou a feiticeira bem baixo.
Uma luz verde saiu de suas mãos e como um manto de brilho cobriu os três fazendo-os desaparecer dali. Carenia fechou os olhos e tocou o peito, o sangue acelerou dentro dela com uma fisgada enquanto o grupo recebia sua magia. O líder Ent olhou para os lados, procurava o grupo. Treor balançava negativamente a cabeça, os olhos já molhados, não olhava mais para o Ent apenas para Zar’rov que precisava de um pouco de ajuda pra andar.
— Não adianta... — disse o ranger com todo o desespero de alguém que será assassinado e não possui escapatória.
— Cala essa boca seu estrume! — disse Zar’rov.
— Ele vai nos achar.
O Ent parou onde estava, balançou os galhos superiores, a copa inteira e depois os pés. Algumas árvores em volta brilharam como se chuva estivesse caindo no local. Uma esfera amarelada surgiu acima delas e desceu a toda velocidade, entrando entre os galhos menores e depois os maiores, bateu no caule e iluminou o tronco por um segundo. Esse foi o tempo necessário para o Rei Ent olhar para o lado e ver os 3 ali, num bom disfarce invisível, mas não a altura das habilidades do Líder dos Protetores. Enquanto estiverem na floresta o Líder era o caçador daqueles que ceifaram em sua mata.
A criatura andou rápido na direção do grupo, passando por pedaços imensos de terra e pedra com facilidade. Aquelas pernas de mais de 3 metros de comprimento eram intimidadoras. O ent levantou a mão e com a velocidade que vinha foi interceptado por alguém que pulara na sua face de madeira. O elfo negro surgiu de uma árvore e marcava o ent com suas adagas, eram estocadas rápidas e diretas, a seiva espirrou. O Ent segurou o elfo pela cabeça e o arremessou no chão. A força foi imensa e o assassino quicou duas vezes como um boneco de pano jogado por uma criança. Os três olharam a cena e não acreditavam no assassino recebendo no chão um pisão daquela perna, os galhos perfuraram toda a estrutura do assassino, atravessaram o corpo até chegar ao solo.
— Corram!!! — gritou uma voz seca, gelada, mais parecia um tecido sendo rasgado com as mãos.
A voz vinha da esquerda, entre as árvores, era do elfo negro. O grupo reconheceu o companheiro e correu, o Ent escutara também e sob o seu pé de galhos pontudos o elfo destruído se desfazia em fumaça, logo depois ele surgia das árvores, na frente do Ent.
— Vem, seu amontoado de gravetos de cemitério — a provocação era uma afronta e vindo daquela voz pútrida era pior ainda.
O grupo corria o mais rápido que conseguia para fora daquele lugar. O Ent tentou acertar duas vezes o assassino, mas depois de não conseguir muita coisa, parou o ataque e olhou para as árvores que brilhavam. Abaixou os braços e esperou. Juntou as pernas e tocou a árvore mais próxima. Fez um barulho que parecia de desagrado. Virou as costas para o assassino e caminhou na direção de volta. O elfo negro as suas costas continuou na mesma posição, ameaçadora, girando as adagas nas mãos até começar a desaparecer como fez a primeira ilusão. Uma fumaça branca que começava pelos pés e depois seguia pelo corpo.
Zar’rov, Treor e Carenia correram como nunca até chegarem a um riacho, atravessaram e aumentaram a corrida. Os três nem olhavam para trás, mas olhavam para as árvores e tinham a impressão que ele poderia surgir de qualquer lugar já que o barulho das passadas tinha terminado.
— Como vocês são engraçados quando estão com medo — falou a voz do assassino, rasgada, por um momento como uma assombração, sentado na raiz à frente.
Eles se entreolharam.
— Você gastou... — começou Carenia.
Ele confirmou com a cabeça.
— A runa que você prendeu no pote — continuou Treor — Era de ilusão...
Ele fizera uma cara como se aquilo não fosse muita coisa, acharia outra.
— Vamos embora dessa maldita floresta — resmungou Zar’rov.
— Melhor irem mesmo... — falou o Líder Ent muito longe dali observando através de uma sequóia os quatro juntos — Da próxima vez que encontrar vocês, seus profanadores, não haverá piedade, dois de vocês possuem algo de bom ainda, os outros dois mereciam perecer como fizeram a bons heróis. Vocês não são heróis, são uma escória que deveria ser destruída e expulsa desse mundo. Sinceramente, espero que voltem, voltem para um acerto de contas e dessa vez eu não serei benevolente.
O líder Ent andou mais um pouco e encontrou um elfo antigo, sentado numa parte com muito musgo.
— Piedade de novo? — perguntou o elfo.
— Sim — disse o ent no seu tom de voz mais baixo.
— Imaginei amigo — disse o elfo que levantou de onde estava, ergueu o cajado e muitas árvores paradas ganharam vida. Desprendendo do solo, revelando olhos e bocas — Vasculhem tudo e tragam os corpos, vamos conceder a esses bons homens um funeral.
As árvores bem menores que o líder ent começaram uma caminhada para a clareira.
— Anime-se amigo, existirão mais para esmagar no futuro — brincou o elfo.
O ent só se manteve calado. Era assim que preferia quando sua floresta era banhada com sangue inocente.